sábado, 2 de maio de 2015

Longa trajetória; velha história; agora, menos ilusória.

08 de dezembro, 1998. 

     Tão perfeito que não há como descrever... aquele sentimento profundo, o qual nos fazem pensar que nada pode abalar aquilo... um sentimento tão íntimo; particular, faz-nos perceber que, às vezes, uma pessoa possa completá-lo de formas inimagináveis... 
     Parecia-me, em primeira pessoa, um sentimento sólido como rocha; resistente... mas parece-me, agora, tão perigoso como uma granada.
     Depois de anos sonhando com seu toque, com seus beijos, suas carícias, suas doces palavras sussurradas no meu ouvido... mas eu nunca pude ter nada disso, você não me dera tanta alegria, apenas um sensação de frio na barriga, que parecia que jamais passaria, nem mesmo um porre terminou com isso, aqueceu. Quisera eu ter minhas unhas caminhando sobre suas costas; minhas pernas abraçando sua cintura; meus lábios sendo prensados contra os seus. Você me prometera amor, carinho, companheirismo... mas a unica coisa que me proporcionou foi uma sensação de vazio; raiva, ódio, desprezo e uma tristeza imensurável.
      
20 de abril, 2001. 

    Sentada na poltrona confortável de um ônibus, ia encontrar minha amiga de anos em uma cidade perto da minha, ou quase perto. Com a poltrona reclinada, coloquei os pés na da frente e peguei meus materiais, meus instrumentos de trabalho. Lápis, canetas, borracha... tudo. Uma folha média e olhei para a janela, encostei a cabeça na mesma e pus meus pensamentos para trabalhar. Nada.
    O sol entrava pela fresta da janela, e quando olhei para o lado, havia um homem sentado ali, com a barba feita por fazer, os olhos fechados, o cabelo liso caindo sobre o rosto... Daria um lindo desenho. "Oh!" Peguei minhas coisas e coloquei-me a desenha-lo, caprichosamente. Cada traço, feito detalhadamente... seria um lindo desenho para se guardar...
      Acordo assustada, sonhava que... olho para o lado e lá está o belíssimo, segurando uma folha entre seus dedos longos, espera... uma folha! Sento-me apressadamente e vejo que ele está olhando seu autorretrato, analisando de forma minuciosa. "Como se entendesse algo sobre o desenho ou sobre a arte." - Está incrível! A forma como você joga para a folha a sua natureza íntima e sua paixão pelos traços, demonstram o quão boa artista és! - Fala, com uma voz grossa e carregada de confiança. Ele entende, ele sabe sobre a arte. - A arte é vista com maus olhos para alguns, pensam que ela é feita apenas para os ricos, pois não lhes dá dinheiro e assim, o rico já tem e pode usar apenas como um hobbies. Mas a arte, a arte foi entregue a nós como forma de libertação, com ela, podemos observar coisas que - vista, mesmo que com uma alta frequência - a sua beleza. A arte liberta o homem! - Termina. Se levanta e pisca para mim, saindo do ônibus.

  18:30. 
       Já na cidade de minha amiga, preparo-me para passear por lá, um cinema, um shopping, não sei. Visto um vestido preto, simples, mas sensual; colado no corpo, enfatizando minhas curvas. Uma sandália preta alta e uma corrente dourada. Jogo o cabelo para o lado e saio da casa junto com minha amiga. Ela acende dois cigarros e me passa um.
      Chegamos ao shopping, jogamos os cigarros fora e entramos. Andamos lentamente pelos enormes corredores repletos de pessoas, vamos até uma lanchonete e nos sentamos, pedimos um chop... Antes que chegue, vou ao banheiro. Olho-me no espelho, ajeito o vestido e saio de lá. Olho para frente e... lá está ele, com uma calça folgada preta, o boné azul escuro e os olhos verdes brilhando, encarando-me, sinto-me despida até a alma. Nunca o terei. Ele me olha. Eu retribuo. Jogo o cabelo para o lado e coloco-me a andar, passo ao lado dele e continuo, apertando meus lábios, caso fosse rir ou chorar, ao menos iria me segurar.
     Sento ao lado de minha amiga, bebo todo o meu chop... bato sem querer em minha bolsa e cai dela uma folha amassada, desamasso a mesma e lá está o homem do ônibus, olhando-me com aquele jeito confiante que só ele possui. Sorrio, está ai minha próxima aventura; o homem, aquele que tanto sonhei e finalmente o encontro, tornara-se agora, apenas uma vaga lembrança, um beijo que nunca foi dado. Ele agora é só apenas alguém que eu conheci.