segunda-feira, 27 de abril de 2015

15:20..

15:20.


       Sentada em um banco de madeira num parque com uma linda grama verde; uma lagoa com um tom esverdeada no centro... Distante, avisto a pequena floresta composta por árvores grandes. “Mamãe! Você não pega! La la la...” . Uma garotinha de cabelos ruivos com sardas cobrindo o nariz e se espelhando pelas bochechas, olhos azuis e bem pequenina grita para uma versão maior e adulta de si mesma. Pego minha bolsa e procuro pela carteira de cigarros e o isqueiro. Encontro-os e pego ambos. Levo o cigarro a boca e com o isqueiro, acendo o cigarro.
       Gosto de admirar a criançada brincando com seus pais, amigos e animaizinhos de estimação... sinto falta de toda essa alegria  e ingenuidade. Quando criança, observava por detrás de uma grade as crianças brincando na rua. Mãe nunca me permitiu ser tão feliz, para ela, essas crianças não tinham pais que se preocupavam com eles; consequentemente, não teriam um futuro promissor. Ha-Ha! Do que me vale ter um bom emprego e não ter nada para relatar na roda de amigos sobre minha infância? 
       Observo, num banco não muito longe do meu, um casal de jovens se amando, se beijando... A garota loura de cabelos cacheados está com as pernas no banco e entre as do rapaz, encostando suas costas no peitoral dele. O amor! O amor sempre foi algo dispensável para mim, talvez por nunca ter tido a ilusão de que, em um belo dia, eu deixaria meu lenço cair propositalmente e um lindo rapaz o pegaria, me olharia tão profundamente que veria minha alma clamando por seu amor. Mãe sempre me ensinara a ser realista. Não sei se xingo ou agradeço; olhar para esse mundo, pensar na vida, observar as pessoas... Tudo isso merece uma ilusão para deixar a vida ao menos mais interessante. 
       Meu cigarro está no fim, dou uma última tragada, jogo-o no lixo ao lado. Levanto calmamente, recolho minha bolsa e saio andando lentamente para longe de toda essa alegria incapaz de penetrar em mim; o mundo utópico deve ser ótimo, mas, às vezes,  a utopia pode ser pior do que a realidade.

                                       

sábado, 25 de abril de 2015

19:30...

19:30

          Um horário onde pessoas estão saindo de seus trabalhos miseráveis. Todos se aglomeram em um mesmo lugar: o bar do Harry no fim da rua. Um pequeno boteco com uma luz azul fraca; porém deixa-nos capazes de ver todos ali. Uma máquina antiga de som quase enferrujada tocava a minha música preferida: All My Lovin, Amy Winehouse (cover Beatles).

          Peço, como sempre, um bom e velho copo de whisky; procuro em minha bolsa vermelha a carteira de cigarros, finalmente acho, pego um juntamente com o isqueiro; levo-o a boca e trago, observo o ambiente; pessoas sentadas com seus copos cheios, alguns espalhados pelas mesas de madeira antiga, outros junto a mim ao balcão. Acendo meu cigarro, puxo, trago e solto lentamente a fumaça, formando um cone; ela se dispersa no ambiente carregado de angustia. “Quisera eu ser como a fumaça de um cigarro, dispersar-me pelos lugares, cada parte espalhada e levada para qualquer lugar pelo vento.”, sorrio cansadamente

          A música continua e algumas pessoas se levantam e bebem o resto de sua dose, colocando o copo sobre a mesa; o ventilador no teto roda cansado, debatendo-se e rodando, quase parando, fazendo ruídos baixos. “O bar do Harry, tão carregado de tristeza quanto o próprio Harry. Ao perder sua esposa, filha e mãe em um acidente de carro no qual ele mesmo dirigia embriagado, tornara-se frio. Seu rosto, antes vívido, hoje traz olheiras profundas; seus olhos, antes inundados por amor por sua família, hoje traz a tristeza que outrora não sabia que existia. Pobre Harry!” Levanto o copo como um aceno para ele e ele retribui apenas com um aceno de cabeça; voltando a lavar os copos. 

          Sobre mim? (Sorrio). Minha vida não leva a perda de Harry; tampouco um casamento desgastante como o de Benjamim; ou até mesmo a revolta de Louis por tornar-se advogado por insistência do pai. Não, não trago comigo nenhuma tragédia ou amor não correspondido. Tenho um emprego que gosto – um dia saberão -, tenho meus pais em casa que me recebem com um sorriso, tenho uma linda sobrinha... Você está se perguntando o que faço aqui, não é? Faço essa pergunta todas as sextas. 

      Gosto de juntar-me aos desajustados, aos angustiados, aos entristecidos, aos vagabundos. A realidade deles me tira da ilusão que vivo constantemente; o modo como eles veem o mundo como um lugar amargo, nota-se o quão sábios são por enxergar a verdade, não são utópicos. Eu sou como eles, vivo por ai, vagando. Orgulho-me de ser quem sou, você deveria fazer o mesmo. 

20:00.
          Engulo o líquido, coloco o copo sobre o balcão, dou uma profunda tragada, inclino a cabeça para trás e solto a fumaça; amaço o cigarro no cinzeiro. Aceno rapidamente para Harry e ele retribui. Pego minha bolsa, jogo sobre os ombros, pego o casaco vermelho e jogo sobre os braços. Caminho e enquanto isso passo a mão nos ombros de Benjamim e Louis; amigos fieis, sempre aqui comigo. Abro a porta e saiu caminhando lentamente; leve-me para onde quiser...