sábado, 25 de abril de 2015

19:30...

19:30

          Um horário onde pessoas estão saindo de seus trabalhos miseráveis. Todos se aglomeram em um mesmo lugar: o bar do Harry no fim da rua. Um pequeno boteco com uma luz azul fraca; porém deixa-nos capazes de ver todos ali. Uma máquina antiga de som quase enferrujada tocava a minha música preferida: All My Lovin, Amy Winehouse (cover Beatles).

          Peço, como sempre, um bom e velho copo de whisky; procuro em minha bolsa vermelha a carteira de cigarros, finalmente acho, pego um juntamente com o isqueiro; levo-o a boca e trago, observo o ambiente; pessoas sentadas com seus copos cheios, alguns espalhados pelas mesas de madeira antiga, outros junto a mim ao balcão. Acendo meu cigarro, puxo, trago e solto lentamente a fumaça, formando um cone; ela se dispersa no ambiente carregado de angustia. “Quisera eu ser como a fumaça de um cigarro, dispersar-me pelos lugares, cada parte espalhada e levada para qualquer lugar pelo vento.”, sorrio cansadamente

          A música continua e algumas pessoas se levantam e bebem o resto de sua dose, colocando o copo sobre a mesa; o ventilador no teto roda cansado, debatendo-se e rodando, quase parando, fazendo ruídos baixos. “O bar do Harry, tão carregado de tristeza quanto o próprio Harry. Ao perder sua esposa, filha e mãe em um acidente de carro no qual ele mesmo dirigia embriagado, tornara-se frio. Seu rosto, antes vívido, hoje traz olheiras profundas; seus olhos, antes inundados por amor por sua família, hoje traz a tristeza que outrora não sabia que existia. Pobre Harry!” Levanto o copo como um aceno para ele e ele retribui apenas com um aceno de cabeça; voltando a lavar os copos. 

          Sobre mim? (Sorrio). Minha vida não leva a perda de Harry; tampouco um casamento desgastante como o de Benjamim; ou até mesmo a revolta de Louis por tornar-se advogado por insistência do pai. Não, não trago comigo nenhuma tragédia ou amor não correspondido. Tenho um emprego que gosto – um dia saberão -, tenho meus pais em casa que me recebem com um sorriso, tenho uma linda sobrinha... Você está se perguntando o que faço aqui, não é? Faço essa pergunta todas as sextas. 

      Gosto de juntar-me aos desajustados, aos angustiados, aos entristecidos, aos vagabundos. A realidade deles me tira da ilusão que vivo constantemente; o modo como eles veem o mundo como um lugar amargo, nota-se o quão sábios são por enxergar a verdade, não são utópicos. Eu sou como eles, vivo por ai, vagando. Orgulho-me de ser quem sou, você deveria fazer o mesmo. 

20:00.
          Engulo o líquido, coloco o copo sobre o balcão, dou uma profunda tragada, inclino a cabeça para trás e solto a fumaça; amaço o cigarro no cinzeiro. Aceno rapidamente para Harry e ele retribui. Pego minha bolsa, jogo sobre os ombros, pego o casaco vermelho e jogo sobre os braços. Caminho e enquanto isso passo a mão nos ombros de Benjamim e Louis; amigos fieis, sempre aqui comigo. Abro a porta e saiu caminhando lentamente; leve-me para onde quiser... 

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