sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Querido diário

   Querido diário,

   Incontáveis vezes ficamos incomodados com demostrações de carinho em livros, novelas, filmes e até mesmo ao nosso redor, no nosso cotidiano, já que, atualmente, estão ritualizando o amor com tanta intensidade que diversas vezes ficamos tentados a degustar um pouquinho dessa sensação que todos que já provaram sentem tanta paz ao comentar sobre. Riem abobadamente ao se lembrarem de um amor passado ou do atual; comentam com tanta leveza na voz, tanta emoção, que ao pensarmos, parece-nos, em primeira pessoa, um daqueles momentos que fazemos o que mais gostamos.

    Eu, particularmente, não vejo nenhuma emoção, inúmeras vezes vemos, após o término de um relacionamento, cada um sofrendo de um lado, mas geralmente, há sempre aquele que sofre mais, é como se para nós de fora, aquele momento que viveram juntos tivesse sido unilateral. Não tenho medo da dor, pois já a conheço de várias formas ainda mais avassaladoras do que uma tristeza de perder aquele que tanto diz amar. Contudo, não me vejo apta a falar sobre tal coisa, a partir do momento que estou pressupondo coisas que me deixam assustada e que me prende a ponto de não me deixar experimentar.

     Levo comigo a frieza da Antártida, onde vários que tentassem se aproximar  não suportariam; levo também, uma muralha erguida conscientemente envolta de espinhos cuja proteção é capaz de amedrontar aqueles mais destemidos que tentassem penetrar automaticamente seriam barrados e voltariam para casa repleto de cortes que, quiçá, jamais poderiam ser curados. Não que eu queira ser sozinha, mas não acho que a companhia de homem seja tão importante, eu só me acho auto suficiente o bastante  para não necessitar de alguém ao meu lado.

   No entanto, observando melhor a situação, vejo que estou tentando adiar o inadiável, parece-me apenas medo do desconhecido. Percebo que sim, sou capaz de amar e ser amada, porém, considerando o quão birrenta, teimosa e independente sou, seria necessário que um homem fosse capaz de suportar tais coisas sem que questione ou tente me mudar. Vejo casais se amando e pergunto-me se é realmente necessário toda aquela coisa melosa; vejo fotos e legendas enfatizando diversas vezes o quanto se amam e que não são fortes o bastante para viver sem àquela pessoa. Eu não sei se consigo ser assim e bem provavelmente, todos que se relacionam esperam de seu amado ao menos um pouco dessa "melosidade" uma vez ou outra.

    Ultimamente tenho pensando tanto sobre isso que chego a não dormir a noite com medo, anseio e inúmeros sentimentos que não sei nomear ou entender pois jamais senti nenhum deles. Mas agora apenas quero repassá-los para alguém que os mereça - e obviamente que me mereça também.

     Por fim, deixo minhas palavras falarem por mim, como uma observadora de fora, apenas quero entender o que se passa com a protagonista. Talvez, um dia, eu vá encontrar alguém, mas, por hora, irei ficar quieta, como sempre estive. Para tudo tem seu tempo, estando próximo ou não, não iria adiantar o meu nesse quesito. Prefiro a demora carregada de certeza do que a rapidez repleta de inconveniências e futura dor.

     Querido diário, por fim, despeço-me para pairar meus desenhos mais íntimos, pois, como já disse acima sobre meus sentimentos, sou incapaz de descrevê-los e apenas aquele merecedor de armadura brilhante irá tê-los intensamente.

    Amélia, 10/08/2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário