11:47
Acordo assustada com o toque alto do meu telefone que estava debaixo do travesseiro. Ainda sonolenta, pego o mesmo e atendo.
- Sim? - falo com a voz ainda grogue. Ouço um suspiro. Olho para a tela do celular e consta ser minha mãe. - Mãe? Algum problema? Esqueceu suas chaves?
- Não, minha querida. Queria eu que fosse isso. - Noto que sua voz falha um pouco.
- Er... mae? Tu estás me assustando. O que houve? Tudo bem com você? Com o pai? - Levanto da cama. Começo a me preocupar.
- Sim, tudo bem com a gente. O problema é com... - Ela suspira e novamente sua voz volta a falhar, noto uma certa resistência em falar o que queria. - Bom, o problema é com Morgana. Oh, minha filha, não sei como te falar isso, nem devia ser pelo telefone. Mas é preciso que saiba agora.
- Tá. Então fale, está me assustando. O que houve com Morgana? - Morgana é minha melhor amiga, estamos juntas desde o Jardim de infância. Silêncio. - Mãe! Fala logo.
- Morgana faleceu, seu corpo foi encontrado logo pela manhã por sua mãe. Ela suicidou, Amélia. Sinto muito, muito mesmo. Queria estar aí com você, mas devido ao...
Deixo o telefone cair, sem deixar que mae termine e falar. Caio de joelhos no piso frio. Grito o mais alto que posso, lágrimas escorrem compulsivamente e dançam no meu rosto. Fico em posição fetal no chão. Como? Por que? Como ela pôde? Como vou ficar sem ela? Ela me conhecia melhor do que qualquer um, melhor do que eu mesma. Era em seu colo que eu chorava, desabafava; era na companhia dela que eu me sentia verdadeiramente feliz; era ela quem me apoiava a continuar desenhando; era ela quem me tirava dessa realidade sombria; eu a amava e nem consegui ajudá-lá.
Morgana era depressiva, porém disfarçava bem. Considerando os pais que temos, nem era necessário usar a máscara, eles não tinham tempo para nós, sabíamos que eles nos amava, contudo, toda a correria do trabalho não permitia que ficássemos sempre juntos. Morgana sempre esteve ao meu lado, sempre me ajudou e eu... bem, eu não consegui fazer o mesmo. Quando eu caía, ela me levantava. Quando eu sorria, ela era o motivo da felicidade. Quando eu bebia, ela me acompanhava. Quando eu precisava fugir, ela me acolhia.
Levanto do chão, vou ao banheiro e tomo um banho rápido, enrolo a toalha no corpo e vou até o guarda roupa. Pego um vestido preto justo com decote em V grande. Procuro por um scarpin tão preto quanto o petróleo. Santo na penteadeira, escovo meus cabelos e faço um rabo de cavalo alto. Coloco meus brincos de argola médio e passo batom vermelho claro. Procuro minha bolsa e logo retiro o cigarro. Pego o isqueiro em cima da cama e acendo o cigarro. Puxo, trago e solto. Começo a andar indo em direção às escadas. Desço e vou para sala, abro a porta e saio. Vou até meu carro, coloco a chave e o ligo. Lágrimas escorrem calmamente pelo meu rosto. Limpo. Vou em direção ao Centro Pax, um lugar frio, depressivo.
Vejo vários carros ali parados. Estaciono o meu, desço e caminho até a entrada. A entrada é um arco de mármore Preto, bordado com flores de cores claras. Entro a dou de cara com o caixão. Não quero me aproximar, não quero me despedir. Fico parada na entrada, segurando a bolsa com ambas as mãos. Não consigo me mover. Minha mãe me percebe, se levanta do Banco e vem até mim. Ela me abraça forte, posicionando minha cabeça contra seus seios. Ela acaricia minha cabeça, beija o topo dela, me aperta contra seu corpo. Não me movo. Quero sair dali. Quero minha amiga! Respiro fundo, me desprendo de minha mãe e caminho até o caixão preto. Paro na frente dele e la está Morgana.
Seu cabelo está solto sobre os ombros com cachos lindos, bem feitos. Bochechas rosadas, porém o resto de seu rosto está pálido. Seus olhos fechados. Lábios pintados com um.batom rosa bebê. Percebo que está usando o vestido roxo que comprara para nossa formatura. Posiciono a mão sobre seu rosto, acaricio sua testa. Uma lágrima cai sobre o vel que a cobria. A mãe dela me abraça e chora desesperadamente. Choro em silêncio, por dentro. Não irei chorar diante aquela que sempre fazia sorrir.
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