sábado, 3 de outubro de 2015

A beleza em cada momento...

06:30


    O relógio desperta, levanto-me e me arrasto pelo quarto cambaleando de sono, ninguém devia acordar tão cedo assim! Vou ao banheiro, ligo o chuveiro e entro debaixo da água morna. Inclino a cabeça para a frente e para baixo, deixo a água cair sobre meu pescoço e escorrer pelo meu corpo, lavo meu corpo e meu cabelos, desligo o chuveiro, pego a toalha e me seco. Penteio os cabelos para trás e visto o roupão azul bebê. 
    Saio do quarto e desço as escadas, andando calmamente, ainda sonolenta. Adentro na cozinha e meus pais já estão a mesa tomando o café da manhã. Vou até a fruteira e pego uma maçã, lavo-a e começo a comê-la, encosto-me no balcão de mármore preto. 
    - Hoje tenho uma reunião e provavelmente chegarei tarde. - Indaga meu pai. - Não me espere para a janta, comerei algo no escritório ou alguma lanchonete, não sei. - Fala e toma um pouco do seu café. Sempre com suas reuniões, ainda sinto o tremor passar pela minha pele sempre que o vejo assim e lembro da vez que tentará obrigar-me a cursar Engenharia Mecânica para um dia ser a dona de seu escritório e toda a rede que tem espalhada pelo Estado.
    - Bom, eu também vou chegar tarde hoje, vou sair com minhas amigas ou simplesmente andar um pouco para espairecer as ideias e, quicá, desenhar algo. - Falo com um tom objetivo e direto, não abrindo nenhuma porta para o começo de mais uma discussão entre mim e meus pais, que sempre fazem questão de desmerecer a arte, alegando ser coisa de hippies e vagabundos que não se importam com vida, apenas ficam vagabundando por aí. 
    Minha mãe suspira. - Ah, Amélia! Já percebemos que você realmente não tem jeito, vai simplesmente ficar fazendo desenhos sem nexo ou de coisas que todos nós já vimos e que não há nada implícito ali. Por exemplo: uma ponte velha com árvores ao redor... qual a graça? - Ela levanta os braços e suspira novamente. - Querida, entre na faculdade e siga o caminho de seu pai, torne-se uma mulher independente financeiramente, seja bem sucedida e respeitada por todos. 
    - Uma ponte velha? Mãe, você realmente não entende nada de arte ou apenas fecha seus olhos para a beleza escondida nos mínimos detalhes, a beleza em cada momento/coisa. - Suspiro e dou mais uma mordida na maçã. 
    - Artes, uma coisa desnecessária. - Fala meu pai com desdém. 
   - Sinto muito se vocês preferem ficarem presos em um mundo obscuro e rotineiro, cujo sentido, visto por mim e todos aqueles que amam e vivem a vida de forma intensa, vemos as coisas lindas e o quão inovadora ela pode ser. - Falo com uma leveza na voz que a princípio pensei que havia tocado seus corações. Engano meu. 


    - Querida, não se vive de beleza, se vive de dinheiro, aquele papelzinho que compra todas as suas roupas e supre todos os seus luxos e mimos. - Mãe retruca, tocando sua xícara bordada com flores. Ela sempre toma seu café naquela xícara e acredito firmemente que nunca notou a beleza que as flores carregam e alegram sua xícara. 
     - Quando uma pessoas não vai bem Artes. todos desculpam seu fracasso, afinal, dizem: "artes é para aqueles que nasceram com o dom", no entanto, quando uma pessoa fracassa em física e matemática, ela é uma derrotada e considerada aos olhos da sociedade, uma pessoa burra, pois: basta se esforçar. Não há uma justiça em tudo isso! - Abano os braços e continuo, notando o olhar de minha mãe, ela está arqueando um sobrancelha. - É injusto para com aqueles que possuem o tal o dom, principalmente pelo fato de que vocês sempre querem limitá-los e barrá-los. Somos obrigados a fazer algo que  não gostamos, logo, por motivos óbvios, descartamos a ideia de ao menos nos esforçarmos para algo tão desgastante. Prefiro ser uma morta de fome e feliz, a ser uma mulher rica e com a alma tão escura e consequentemente morta. 
    - Oh, meu bem! - Sorri minha mãe enquanto mexe em seus belos e longos cabelos louros. - Tente se convencer de que o dinheiro não é importante. 
    - Eu não disse que ele não é importante, pois é, contudo, para mim, ele é apenas algo substancial. 


    Bufo e saio pisando fundo, correndo enquanto subo as escadas. Entro no meu quarto e bato a porta. Abro meu guarda roupa e pego um short curto desfiado, uma blusa com estampas florais, calço meus all star branco e pego meus materiais de desenhos. 
    Saio do quarto, desço as escadas aos pulos e saio de casa. Assovio para um taxi e peço para que me leve a algum lugar feliz, longe de toda aquela escuridão na qual me encontrava. Ele sorri, assente com a cabeça e segue. Após andar por 30min, ele para em uma praça, noto imediatamente que é um bairro de classe média, desprovido de todo o luxo ao qual estava acostumada... Perfeito! Pago o motorista e desço do automóvel.Caminho um pouco, olhando tudo ao meu redor. 
    Vou até o centro da praça, sento-me sobre a grama, pego lápis, borracha e todos os acessórios necessários. Observo crianças correndo para todo lado; mães balançando seus filhos menores e rindo enquanto veem a alegria estampada no rosto de seus filhos, aqueles seres tão inocentes; invejo-os. Pego um cigarro e o isqueiro de minha bolsa, acendo o cigarro, puxo, trago e solto a fumaça, olhando-a dispersar pelo ambiente. Coloco a mão sobre o papel, automaticamente começo a desenhar a praça com seus bancos acinzentados, suas árvores grandes e majestosas, cujos galhos e folhas nos proporcionam sombras para relaxar e descansar. Desenho os balanços e as crianças sentadas sobre eles, esboçando um sorriso aberto de orelha a orelha, desenho suas mães igualmente felizes. Desenho as crianças maiores correndo com seus amigos. Desenho as pessoas caminhando com seus cachorros, fazendo traços ao redor dos rabos, pois abanam demonstrando a felicidade. 
   Ah! Como és bela a infância, não há responsabilidades, infelicidades - apenas quando são chamados e precisam parar de brincar ou quando não ganham o que querem -, não há malícia, ambição, inveja... Eles sim vivem! Nesses momentos queria meus pais aqui comigo, queria mostrar a eles que não é necessário o dinheiro para ser feliz, o que se precisa é viver. Viva sua vida de forma intensa e despreocupada, verás que só tens a ganhar.  

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Querido diário

   Querido diário,

   Incontáveis vezes ficamos incomodados com demostrações de carinho em livros, novelas, filmes e até mesmo ao nosso redor, no nosso cotidiano, já que, atualmente, estão ritualizando o amor com tanta intensidade que diversas vezes ficamos tentados a degustar um pouquinho dessa sensação que todos que já provaram sentem tanta paz ao comentar sobre. Riem abobadamente ao se lembrarem de um amor passado ou do atual; comentam com tanta leveza na voz, tanta emoção, que ao pensarmos, parece-nos, em primeira pessoa, um daqueles momentos que fazemos o que mais gostamos.

    Eu, particularmente, não vejo nenhuma emoção, inúmeras vezes vemos, após o término de um relacionamento, cada um sofrendo de um lado, mas geralmente, há sempre aquele que sofre mais, é como se para nós de fora, aquele momento que viveram juntos tivesse sido unilateral. Não tenho medo da dor, pois já a conheço de várias formas ainda mais avassaladoras do que uma tristeza de perder aquele que tanto diz amar. Contudo, não me vejo apta a falar sobre tal coisa, a partir do momento que estou pressupondo coisas que me deixam assustada e que me prende a ponto de não me deixar experimentar.

     Levo comigo a frieza da Antártida, onde vários que tentassem se aproximar  não suportariam; levo também, uma muralha erguida conscientemente envolta de espinhos cuja proteção é capaz de amedrontar aqueles mais destemidos que tentassem penetrar automaticamente seriam barrados e voltariam para casa repleto de cortes que, quiçá, jamais poderiam ser curados. Não que eu queira ser sozinha, mas não acho que a companhia de homem seja tão importante, eu só me acho auto suficiente o bastante  para não necessitar de alguém ao meu lado.

   No entanto, observando melhor a situação, vejo que estou tentando adiar o inadiável, parece-me apenas medo do desconhecido. Percebo que sim, sou capaz de amar e ser amada, porém, considerando o quão birrenta, teimosa e independente sou, seria necessário que um homem fosse capaz de suportar tais coisas sem que questione ou tente me mudar. Vejo casais se amando e pergunto-me se é realmente necessário toda aquela coisa melosa; vejo fotos e legendas enfatizando diversas vezes o quanto se amam e que não são fortes o bastante para viver sem àquela pessoa. Eu não sei se consigo ser assim e bem provavelmente, todos que se relacionam esperam de seu amado ao menos um pouco dessa "melosidade" uma vez ou outra.

    Ultimamente tenho pensando tanto sobre isso que chego a não dormir a noite com medo, anseio e inúmeros sentimentos que não sei nomear ou entender pois jamais senti nenhum deles. Mas agora apenas quero repassá-los para alguém que os mereça - e obviamente que me mereça também.

     Por fim, deixo minhas palavras falarem por mim, como uma observadora de fora, apenas quero entender o que se passa com a protagonista. Talvez, um dia, eu vá encontrar alguém, mas, por hora, irei ficar quieta, como sempre estive. Para tudo tem seu tempo, estando próximo ou não, não iria adiantar o meu nesse quesito. Prefiro a demora carregada de certeza do que a rapidez repleta de inconveniências e futura dor.

     Querido diário, por fim, despeço-me para pairar meus desenhos mais íntimos, pois, como já disse acima sobre meus sentimentos, sou incapaz de descrevê-los e apenas aquele merecedor de armadura brilhante irá tê-los intensamente.

    Amélia, 10/08/2015

sábado, 2 de maio de 2015

Longa trajetória; velha história; agora, menos ilusória.

08 de dezembro, 1998. 

     Tão perfeito que não há como descrever... aquele sentimento profundo, o qual nos fazem pensar que nada pode abalar aquilo... um sentimento tão íntimo; particular, faz-nos perceber que, às vezes, uma pessoa possa completá-lo de formas inimagináveis... 
     Parecia-me, em primeira pessoa, um sentimento sólido como rocha; resistente... mas parece-me, agora, tão perigoso como uma granada.
     Depois de anos sonhando com seu toque, com seus beijos, suas carícias, suas doces palavras sussurradas no meu ouvido... mas eu nunca pude ter nada disso, você não me dera tanta alegria, apenas um sensação de frio na barriga, que parecia que jamais passaria, nem mesmo um porre terminou com isso, aqueceu. Quisera eu ter minhas unhas caminhando sobre suas costas; minhas pernas abraçando sua cintura; meus lábios sendo prensados contra os seus. Você me prometera amor, carinho, companheirismo... mas a unica coisa que me proporcionou foi uma sensação de vazio; raiva, ódio, desprezo e uma tristeza imensurável.
      
20 de abril, 2001. 

    Sentada na poltrona confortável de um ônibus, ia encontrar minha amiga de anos em uma cidade perto da minha, ou quase perto. Com a poltrona reclinada, coloquei os pés na da frente e peguei meus materiais, meus instrumentos de trabalho. Lápis, canetas, borracha... tudo. Uma folha média e olhei para a janela, encostei a cabeça na mesma e pus meus pensamentos para trabalhar. Nada.
    O sol entrava pela fresta da janela, e quando olhei para o lado, havia um homem sentado ali, com a barba feita por fazer, os olhos fechados, o cabelo liso caindo sobre o rosto... Daria um lindo desenho. "Oh!" Peguei minhas coisas e coloquei-me a desenha-lo, caprichosamente. Cada traço, feito detalhadamente... seria um lindo desenho para se guardar...
      Acordo assustada, sonhava que... olho para o lado e lá está o belíssimo, segurando uma folha entre seus dedos longos, espera... uma folha! Sento-me apressadamente e vejo que ele está olhando seu autorretrato, analisando de forma minuciosa. "Como se entendesse algo sobre o desenho ou sobre a arte." - Está incrível! A forma como você joga para a folha a sua natureza íntima e sua paixão pelos traços, demonstram o quão boa artista és! - Fala, com uma voz grossa e carregada de confiança. Ele entende, ele sabe sobre a arte. - A arte é vista com maus olhos para alguns, pensam que ela é feita apenas para os ricos, pois não lhes dá dinheiro e assim, o rico já tem e pode usar apenas como um hobbies. Mas a arte, a arte foi entregue a nós como forma de libertação, com ela, podemos observar coisas que - vista, mesmo que com uma alta frequência - a sua beleza. A arte liberta o homem! - Termina. Se levanta e pisca para mim, saindo do ônibus.

  18:30. 
       Já na cidade de minha amiga, preparo-me para passear por lá, um cinema, um shopping, não sei. Visto um vestido preto, simples, mas sensual; colado no corpo, enfatizando minhas curvas. Uma sandália preta alta e uma corrente dourada. Jogo o cabelo para o lado e saio da casa junto com minha amiga. Ela acende dois cigarros e me passa um.
      Chegamos ao shopping, jogamos os cigarros fora e entramos. Andamos lentamente pelos enormes corredores repletos de pessoas, vamos até uma lanchonete e nos sentamos, pedimos um chop... Antes que chegue, vou ao banheiro. Olho-me no espelho, ajeito o vestido e saio de lá. Olho para frente e... lá está ele, com uma calça folgada preta, o boné azul escuro e os olhos verdes brilhando, encarando-me, sinto-me despida até a alma. Nunca o terei. Ele me olha. Eu retribuo. Jogo o cabelo para o lado e coloco-me a andar, passo ao lado dele e continuo, apertando meus lábios, caso fosse rir ou chorar, ao menos iria me segurar.
     Sento ao lado de minha amiga, bebo todo o meu chop... bato sem querer em minha bolsa e cai dela uma folha amassada, desamasso a mesma e lá está o homem do ônibus, olhando-me com aquele jeito confiante que só ele possui. Sorrio, está ai minha próxima aventura; o homem, aquele que tanto sonhei e finalmente o encontro, tornara-se agora, apenas uma vaga lembrança, um beijo que nunca foi dado. Ele agora é só apenas alguém que eu conheci. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

15:20..

15:20.


       Sentada em um banco de madeira num parque com uma linda grama verde; uma lagoa com um tom esverdeada no centro... Distante, avisto a pequena floresta composta por árvores grandes. “Mamãe! Você não pega! La la la...” . Uma garotinha de cabelos ruivos com sardas cobrindo o nariz e se espelhando pelas bochechas, olhos azuis e bem pequenina grita para uma versão maior e adulta de si mesma. Pego minha bolsa e procuro pela carteira de cigarros e o isqueiro. Encontro-os e pego ambos. Levo o cigarro a boca e com o isqueiro, acendo o cigarro.
       Gosto de admirar a criançada brincando com seus pais, amigos e animaizinhos de estimação... sinto falta de toda essa alegria  e ingenuidade. Quando criança, observava por detrás de uma grade as crianças brincando na rua. Mãe nunca me permitiu ser tão feliz, para ela, essas crianças não tinham pais que se preocupavam com eles; consequentemente, não teriam um futuro promissor. Ha-Ha! Do que me vale ter um bom emprego e não ter nada para relatar na roda de amigos sobre minha infância? 
       Observo, num banco não muito longe do meu, um casal de jovens se amando, se beijando... A garota loura de cabelos cacheados está com as pernas no banco e entre as do rapaz, encostando suas costas no peitoral dele. O amor! O amor sempre foi algo dispensável para mim, talvez por nunca ter tido a ilusão de que, em um belo dia, eu deixaria meu lenço cair propositalmente e um lindo rapaz o pegaria, me olharia tão profundamente que veria minha alma clamando por seu amor. Mãe sempre me ensinara a ser realista. Não sei se xingo ou agradeço; olhar para esse mundo, pensar na vida, observar as pessoas... Tudo isso merece uma ilusão para deixar a vida ao menos mais interessante. 
       Meu cigarro está no fim, dou uma última tragada, jogo-o no lixo ao lado. Levanto calmamente, recolho minha bolsa e saio andando lentamente para longe de toda essa alegria incapaz de penetrar em mim; o mundo utópico deve ser ótimo, mas, às vezes,  a utopia pode ser pior do que a realidade.

                                       

sábado, 25 de abril de 2015

19:30...

19:30

          Um horário onde pessoas estão saindo de seus trabalhos miseráveis. Todos se aglomeram em um mesmo lugar: o bar do Harry no fim da rua. Um pequeno boteco com uma luz azul fraca; porém deixa-nos capazes de ver todos ali. Uma máquina antiga de som quase enferrujada tocava a minha música preferida: All My Lovin, Amy Winehouse (cover Beatles).

          Peço, como sempre, um bom e velho copo de whisky; procuro em minha bolsa vermelha a carteira de cigarros, finalmente acho, pego um juntamente com o isqueiro; levo-o a boca e trago, observo o ambiente; pessoas sentadas com seus copos cheios, alguns espalhados pelas mesas de madeira antiga, outros junto a mim ao balcão. Acendo meu cigarro, puxo, trago e solto lentamente a fumaça, formando um cone; ela se dispersa no ambiente carregado de angustia. “Quisera eu ser como a fumaça de um cigarro, dispersar-me pelos lugares, cada parte espalhada e levada para qualquer lugar pelo vento.”, sorrio cansadamente

          A música continua e algumas pessoas se levantam e bebem o resto de sua dose, colocando o copo sobre a mesa; o ventilador no teto roda cansado, debatendo-se e rodando, quase parando, fazendo ruídos baixos. “O bar do Harry, tão carregado de tristeza quanto o próprio Harry. Ao perder sua esposa, filha e mãe em um acidente de carro no qual ele mesmo dirigia embriagado, tornara-se frio. Seu rosto, antes vívido, hoje traz olheiras profundas; seus olhos, antes inundados por amor por sua família, hoje traz a tristeza que outrora não sabia que existia. Pobre Harry!” Levanto o copo como um aceno para ele e ele retribui apenas com um aceno de cabeça; voltando a lavar os copos. 

          Sobre mim? (Sorrio). Minha vida não leva a perda de Harry; tampouco um casamento desgastante como o de Benjamim; ou até mesmo a revolta de Louis por tornar-se advogado por insistência do pai. Não, não trago comigo nenhuma tragédia ou amor não correspondido. Tenho um emprego que gosto – um dia saberão -, tenho meus pais em casa que me recebem com um sorriso, tenho uma linda sobrinha... Você está se perguntando o que faço aqui, não é? Faço essa pergunta todas as sextas. 

      Gosto de juntar-me aos desajustados, aos angustiados, aos entristecidos, aos vagabundos. A realidade deles me tira da ilusão que vivo constantemente; o modo como eles veem o mundo como um lugar amargo, nota-se o quão sábios são por enxergar a verdade, não são utópicos. Eu sou como eles, vivo por ai, vagando. Orgulho-me de ser quem sou, você deveria fazer o mesmo. 

20:00.
          Engulo o líquido, coloco o copo sobre o balcão, dou uma profunda tragada, inclino a cabeça para trás e solto a fumaça; amaço o cigarro no cinzeiro. Aceno rapidamente para Harry e ele retribui. Pego minha bolsa, jogo sobre os ombros, pego o casaco vermelho e jogo sobre os braços. Caminho e enquanto isso passo a mão nos ombros de Benjamim e Louis; amigos fieis, sempre aqui comigo. Abro a porta e saiu caminhando lentamente; leve-me para onde quiser...